Para muita gente, a parte mais incômoda do voo não é o aperto da poltrona nem o tempo de viagem, e sim aquela dor de ouvido forte que aparece na decolagem ou no pouso. A sensação de ouvido tampado, pressão, estalos e até pontadas agudas é tão marcante que muitas pessoas começam a ficar ansiosas só de pensar em entrar no avião. E, na maior parte das vezes, o problema não está no ouvido em si, mas no nariz e na forma como o corpo lida com a mudança de pressão dentro da cabine.
A explicação está na tuba auditiva, um pequeno canal que liga o ouvido médio ao nariz e à garganta. É ela que equaliza a pressão entre o que está dentro do ouvido e o ambiente. Quando o nariz está inflamado, entupido, com rinite, sinusite ou alergia descontrolada, esse canal funciona pior e a pressão começa a desequilibrar. Resultado: dor, ouvido entupido, zumbido e aquela sensação de que “o ouvido não abre” durante a viagem.
Por isso, uma das principais recomendações de otorrinos é mais simples do que parece: chegar ao aeroporto com o nariz o mais limpo e desinflamado possível. Lavar o nariz antes de sair de casa, com solução adequada orientada pelo médico, ajuda muito o trabalho da tuba auditiva e já reduz o risco de dor e pressão exagerada durante o voo. Parece detalhe, mas para quem vive com nariz entupido é um passo fundamental.

Para pacientes que sofrem de dor de ouvido em praticamente todos os voos, o cuidado precisa ser um pouco mais estruturado. Usar o spray nasal prescrito pelo otorrino cerca de 30 minutos antes da decolagem é uma estratégia frequente em quem tem histórico de muito incômodo. O objetivo é desinflamar a mucosa nasal antes da subida, facilitando a equalização de pressão no ouvido. Não é remédio genérico “peguei na farmácia”, é medicação pensada para o quadro específico de cada pessoa.
Durante o voo, principalmente na decolagem e no pouso, o segredo é manter a tuba auditiva funcionando com movimentos de deglutição. Mascar chiclete, chupar bala, beber água em pequenos goles, bocejar e engolir com frequência ajudam a abrir esse canal e a equilibrar a pressão entre o ouvido e a cabine. É por isso que tanta gente não viaja sem chiclete: não é superstição, é uma forma prática de estimular a deglutição e proteger o ouvido.
Outro ponto que parece pequeno, mas faz diferença, é não deixar a rinite “ao Deus dará” e tentar tratá-la com antecedência, dias ou semanas antes da viagem. Quem tem rinite alérgica, sinusite crônica ou nariz constantemente inflamado tende a sofrer muito mais com pressão no avião. Um acompanhamento com otorrino, ajustes de tratamento e controle das crises antes de embarcar transformam completamente a experiência do voo.
Um conselho que muitos acham estranho, mas é bastante lógico, é evitar dormir justamente na decolagem e no pouso. Quando a pessoa está acordada, engole mais vezes, bebe água, boceja e ajuda o ouvido a se adaptar. Dormindo, essa movimentação diminui e a pressão se acumula. Muita gente acorda do cochilo com o ouvido completamente tampado e sente que perdeu o “timing” da equalização.
Para quem além do avião planeja mergulhos durante a viagem, o cuidado precisa ser redobrado. Tanto o voo quanto o mergulho envolvem mudanças de pressão importantes. O ideal é deixar os mergulhos para os dias intermediários da viagem, evitando situações como voar e mergulhar em sequência muito próxima. O ouvido precisa de tempo para se recuperar dessas variações, e respeitar esse intervalo diminui o risco de barotrauma.

Se, apesar de todos os cuidados, o ouvido continuar tampado ou dolorido depois do pouso, vale observar os sintomas com calma. Em muitos casos, a pressão se equaliza sozinha algumas horas após o voo. Mas se houver dor intensa, sensação de estalo seguido de perda de audição, zumbido forte, tontura ou impressão de que “algo rompeu”, o melhor é procurar um otorrino rapidamente para descartar barotrauma mais sério.
No fim, evitar dor de ouvido em avião não é questão de sorte, é questão de preparo. Nariz lavado, rinite controlada, uso correto de spray nasal quando indicado, deglutição ativa durante decolagem e pouso, cuidado com mergulhos e atenção aos sinais do corpo formam um conjunto de medidas que transformam um voo sofrido em uma viagem muito mais tranquila. Para quem já teve aquela dor aguda que parece atravessar a cabeça, seguir essas orientações é praticamente um seguro auditivo para a próxima decolagem.





